Os desafios da conjuntura atual

Valmor Guedes, Presidente da ASERGHC

Vivemos em uma conjuntura que desafia o poder de mobilização do movimento sindical organizado, dos trabalhadores em geral e da juventude. A crise, que é econômica e política, está servindo como cortina de fumaça para preservar os privilégios dos ricos e poderosos em sua acumulação de riquezas, enquanto uma turma de políticos se alterna e locupleta no poder.

Aqui no Grupo Hospitalar Conceição não é diferente. Com uma administração que vira as costas para os trabalhadores, deixando sem resposta as demandas mais sentidas dos servidores, as terceirizações assumem diversas formas. Primeiro tentaram nos impor a figura jurídica monstruosa das fundação pública de direito privado. Não conseguiram graças à negativa intransigente da direção da ASERGHC. Depois, terceirizando os serviços de higienização. Provocaram com isso uma elevação dos índices de infecção hospitalar. Tiveram que recuar. Agora, estão sucateando o setor de transportes para entregá-lo a empresas terceirizadas. Não vamos permitir!

Mas afinal, que poder é esse e a quem serve?

A sociedade exibe cotidianamente vários exemplos de injustiças. Presenciamos as desigualdades e a opressão diretamente em nossa correria diária ou assistimos nos noticiários de rádio e TV, nos jornais e na internet. As várias redes de comunicação de massa que dominam a área em nosso País e no mundo nos bombardeiam com essas notícias sem fazer reflexão sobre suas origens. Vulgarizam a violência e banalizam as injustiças, levando-nos a discutir entre nós, do povo, apenas os fatos, isoladamente, limitando nossa visão do todo. Isso é “formar a opinião pública”. É o poder de manipular a informação fazendo de conta que estão “apenas informando”.

É a grande mídia corporativa privada a responsável por propagar a ideia defendida pelo liberalismo que prega o Estado mínimo. Para eles, o governo deve se livrar ao máximo de suas obrigações, passando-as para a exploração privada. Na verdade, os defensores desse liberalismo são um grupo seleto da sociedade: os grandes capitalistas, banqueiros e especuladores, que não perdem nunca nas crises, ao contrário, beneficiam-se delas.

A questão de fundo de todas as “crises econômicas” sempre é arrecadar e concentrar o dinheiro para, então, entregar aos bancos e aos detentores de títulos da dívida pública, com juros absurdos, de forma que eles não percam nada. Não querem ser atingidos pelos problemas que eles mesmos causaram. Para isso, os governantes vêm sempre com a mesma receita: cortar direitos e benefícios da sociedade e aumentar tarifas e impostos. Chamam isso de “ajuste fiscal”. Na prática significa: os pobres e a classe média pagam a conta e os ricos não são incomodados.

Há mais de uma década, o atual partido governista elegeu-se prometendo uma mudança. Aquele compromisso de reformas transformou-se em projeto de poder e o PT aliou-se àqueles que outrora criticava, com a única finalidade de manter-se no poder. O resultado foi a manutenção das mesmas injustiças de sempre. Essa situação gerou revolta em parcela da população que, sentindo-se traída e indignada com a violência e as injustiças, vem ocupando as ruas e gerando confusão ao admitir até mesmo o retorno da ditadura militar. O engano está em acreditar que “naquele tempo nada disso acontecia”.

Na verdade, no tempo da ditadura, foi que geramos muitos dos problemas estruturais que o Brasil carrega até hoje. Um exemplo é a dívida pública contraída para construir obras megalômanas como a Transamazônica, que enterrou rios de recursos e nunca foi trafegável, com a uso de dinheiro público para pagar empreiteiras em negócios escusos, até hoje sem esclarecimento. Mas a sociedade não era informada de nada. Nem mesmo das torturas e graves violações de direitos humanos. Havia censura.

É importante que se diga, os donos das grandes redes de comunicação privadas, que hoje em dia gritam reclamando por liberdade de imprensa, não questionavam a censura. Aceitavam quietinhos e sequer fizeram qualquer denúncia dessa prática em organismos internacionais. O jornalista Vladmir Herzog foi assassinado nos porões do DOI-CODI e nenhum dono de empresa de comunicação reclamou na OEA ou na ONU por liberdade de imprensa, como fazem agora contra governos democraticamente eleitos na América Latina que querem regulamentar a mídia.

O golpe militar não veio para melhorar a vida do povo, foi para proteger e garantir aqueles que detinham o poder econômico. Vemos então, que a grande preocupação dos capitalistas é manter esse poder e, para isso, se alicerçam na política, nas forças armadas e no domínio da informação.

As medidas que o governo federal vem anunciando nos últimos dias não são fatos isolados. Elas fazem parte de ações coordenadas, visando manter os lucros de uma camada da sociedade. É necessário reagir, protestar, mobilizar-se organizadamente. Os trabalhadores têm o poder de ser a maioria e podem mudar a realidade. Toda nossa indignação tem que se transformar em manifestação coletiva e em projeto alternativo claro. Todas as vitórias da classe trabalhadora na história foram obtidas com o povo na rua, de forma organizada combatendo e propondo alternativas que não penalizem aqueles que trabalham e produzem. Nosso jornal busca trazer informação alternativa, fazendo reflexão sobre elas. Nessa edição trazemos matérias que buscam demonstrar que existem saídas sem penalizar a grande maioria do povo. Não podemos pagar a conta dos privilégios e da roubalheira.

No GHC, seguiremos lutando por um Acordo Interno que beneficie os que carregam a saúde pública nas mãos: os servidores do hospital, da UPA e dos postos de saúde.

No Brasil, não vamos admitir a retirada de direitos trabalhistas e mais ajuste. Que os ricos paguem a conta!

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